sábado, 12 de maio de 2007

VALE QUANTO SONHA - Sérgio Vaz

fonte da foto: http://www.ao-careggi.toscana.it
No meu registro de nascimento constam algumas informações ao meu respeito, acho que no de vocês também. No meu consta meu nome e sobrenome e os nomes dos meus pais. Quando alguém quiser saber onde eu nasci, a cidade e o estado, e só olhar lá. Vai ver que, além da minha cor, parda, e as cores dos meus olhos e dos meus cabelos, tem o dia, o mês e o ano em que vim ao mundo. Baseado nessas informações deram-me uma identidade, com número e tudo, acompanhada das minhas digitais. Sem ela ninguém se responsabiliza sobre a minha existência. Sem ela eu não consigo a minha subsistência, nem você. Mas há aqueles que percebem que não são apenas números e datas, e constroem com suas próprias mãos, identidades feitas de raízes e asas. Eles não têm registros de nascimento, muitos renascem a todo instante. Sabemos apenas que eles existem. São os que realmente acreditam no céu – independente da religião que acreditam-, por isso valorizam o tempo que estão sobre a terra. Não gastam tempo com nomes ou sobrenomes, chame-os do que quiserem, eles virão. Cidadãos do mundo, são do interior de Fortaleza que fica em Barcelona, na Espanha. São das ladeiras de Taboão da Serra ou das florestas da África. Não são de ninguém, mas são de todo mundo. Nascem a todo instante: à tarde, pela manhã, ou à noite. Tanto faz se é domingo ou sexta-feira, dia dez, trinta, dezembro ou fevereiro. E eles não vêm de nenhum lugar e estão no mundo todo. São brancos, negros, amarelos, gente de todas as cores. Aquarelas nos olhos enxergam o mundo colorido, apesar do preto e branco que impera. Para eles os sonhos são frágeis, ao menor toque de realidade podem-se quebrar. Presos à liberdade, riem do cotidiano. Trabalham porque são felizes e não são felizes só porque trabalham. Eles têm causas nobres, por isso não brigam, lutam. A briga tem hora para acabar, a luta, é para uma vida inteira. Uns se chamam Luther King, outros Marighela. Tem o Zé, o Silva, a Maria. O Zumbi, o Zagatti, Jovelina, não importa, os nomes não importam.

Um comentário:

Jorge disse...

Esse texto: VALE QUANTO SONHA, de Sérgio Vaz é fenomenal. E a frase:
"Eles têm causas nobres, por isso não brigam, lutam. A briga tem hora para acabar, a luta, é para uma vida inteira" é para se ter em mente e refletir a vida inteira mesmo.