segunda-feira, 30 de junho de 2008

MELANINA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Luís Lobo Henriques
Sem palavra que defina
Fumaça disfarçada de neblina
Presença nociva que contamina
Viola triste que desafina
Esperança que se perde na primeira esquina

Verdade que desatina
Dorzinha que passa com aspirina
Navalha que risca a face feminina
Revolta silenciosa feito buzina
Pavio apagado convertendo lágrima em parafina

Pensamentos voantes de menina
Os dois amores de Columbina
Lembrança que sufoca em surdina
Clarão que não ilumina
Fogueira de São João debaixo de garoa fina

Carro ladeira acima sem gasolina
Passado e futuro à beira da ruína
Avião de papel com defeito na turbina
Cerveja em garrafa de tubaína
Menino tentando crescer sem vitamina

Pão amanhecido sem margarina
Pedrinha que aprisiona a urina
Cartilha que indisciplina
Ciência que não se ensina
Açougueiro com licença para exercer a Medicina

Mundo sujo espelhado na retina
Água ardida que alucina
Substância letal em ampola de vacina
Vinagre para amaciar a carne na piscina
Micróbio se alimentando de penicilina

Capital do Capital invejando Teresina
Templo edificado em gelatina
Força bruta contra gente pequenina
Um tiro de borracha na costela para conter a adrenalina
Passagem proibida por excesso de melanina

Um comentário:

Ebbios disse...

Gostei...
tanto dos versos ternos, quando daqueles q cutucam.