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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

TUDO PASSA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Inácio Silva
Passageiro?
Passagem?
Passaporte?
Passa!

Passa frio
Passa sede
Passa raiva
Passa mal

Passa fome:
Uva-passa

Passa chuva
Passarela

Ultrapassa
Passarinho

Passatempo
Passa tempo
Passado

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Ranços

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Carlos Wrede
O ano nem começou e já é quase Março.
O rei sorri e ameaça usar a força de seu braço.
O cavalo-sem-dono não se acostuma com o laço.
O astronauta diz que a Terra é mais bonita vista do espaço.
A criança nunca viu um palhaço.
A Polícia inventa provas e põe o pretinho num embaraço.
O sol vai embora e deixa mormaço.
O banqueiro se vê só e troca um carro por um abraço.
O afago não alivia mais o cansaço.
A lágrima não sai e enferruja o peito de aço.
A barriga tá estufada de tanto bagaço.

O velho morre sem nunca ter tido endereço.
O pão tá caro e ninguém sabe o preço.
A paixão provoca cegueira no começo.

O olhar da cigana é perigoso, tem feitiço.
O dente, se não beber leite, fica quebradiço.
O pai de dez não arruma serviço.
A vida é difícil no cortiço.
A Antropologia diz que o povo brasileiro é mestiço.
O relógio da vítima é de ouro maciço.
O açougue, depois das festas, só vende chouriço.

A menina novinha tá esperando um filho e não sabe o nome do moço.
O lavrador só encontra lama no poço.
A notícia dada pela metade provoca alvoroço.
O patrão chupa a fruta e vende o caroço.
O médico diz que é melhor deixar a bala alojada no pescoço.
Mais de 30 milhões dormem sem almoço.

O poeta tenta falar e o verso vira soluço.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

NOSTALGIA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Samara Oliveira
O homem
E tudo o que ele criou
É incompleto,
Precário
E provisório.
O presente e as coisas que o rodeiam
Estão em constante transformação
Basta um piscar de olhos
E tudo vira passado:
O primeiro dia na escola
O primeiro lápis emprestado
A primeira vontade de tomar iogurte e a geladeira vazia
A primeira briga na rua
O primeiro olho roxo
A primeira surra de Espada-de-São Jorge
A primeira flechada no peito
A primeira rejeição
O primeiro beijo
A primeira mentira
O primeiro banho de cachoeira
A Primeira Comunhão
O primeiro Ki-Chute usado
O primeiro gol impedido
O primeiro salário
A primeira roupa nova
O primeiro desencanto
O primeiro poema
A primeira fuga
O primeiro porre
A primeira batida policial
O primeiro desacato
O primeiro tapa na cara
A primeira vez
O primeiro calafrio
A primeira traição
O primeiro desespero
O primeiro desejo de desaparecer
O primeiro choro no banheiro
O primeiro discurso político
O primeiro diploma na família
O primeiro trimestre na fila do emprego
O primeiro medo de encarar o mundo
A primeira saudade da infância
A primeira revolta com o relógio
A primeira impressão de que a vida já vai ficando para trás

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

DIAS DE OPRESSÃO

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Eduardo Maia
O sangue fosco que escandescia como brasa
Em dias de opressão
Ainda hoje percorre cada centímetro do meu corpo
Irriga vasos, glândulas e cérebro;
Alimenta toda a complexidade do sistema;

Os arrepios e tremedeiras que fragmentavam músculos
Ao ranger de dentes do capitão-do-mato
Ainda hoje estilhaçam minha carne
E afloram meu medo
Em dias de opressão

A voracidade e vileza dos militares
Misturam ao cheiro de fezes
O tinir das metralhas
Confunde meus sentidos e desperta o meu ódio
Em dias de opressão

De repente encontro-me na linha de tiro
Eu, Zé da Silva, trabalhador mal-remunerado
- Morador da rua de cima -
Sobrevivente do quilombo
E de inúmeras chacinas.

Eles rendem-me
Jogam-me contra a parede
Batem no meu rosto
E ofendem a minha moral
Em dias de opressão


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

CARROCEIRO

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Antonio Siqueira
Carroceiro, garimpa o lixo
E encontra nele
Remédio
Para a síndrome da deficiência alimentar

Carroceiro, largue esta carroça
– herança da linhagem eqüina –
E vá para o teu palácio
Porque a Família Real o aguarda
Com um sorriso no rosto
E um vácuo no estômago

Carroceiro, devorai os restos de lixo
Contemplai as páginas do livro já consumido pelas traças
E derrubai as construções de pensamento
Nas quais a mentira se edifica

Carroceiro, decretai a nova regra de sobrevivência
Atravessai o Atlântico, o Pacífico, o Índico, o Ártico e o Antártico
E proclamai em alta voz
A Lei Universal
Que é direito adquirido
Do homem nato e do homem não-nascido

Carroceiro, dizei aos chefes de Estado e aos seus subordinados;
Aos capitalistas e aos socialistas;
Aos burgueses e aos proletários;
Aos cristãos e aos ateus;
Aos pacificadores e aos terroristas;
Aos leigos e aos letrados;
Aos mansos e aos brutos;
Aos que sofrem e aos que fazem sofrer;
Que
Está terminantemente proibido
Morrer ou permitir que se morra de fome


quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Miudeza

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Pilar Mendes Dias

Sou peixe pequeno.
Tão pequeno,
Que qualquer pocinha d'água
É oceano.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

MELANINA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Luís Lobo Henriques
Sem palavra que defina
Fumaça disfarçada de neblina
Presença nociva que contamina
Viola triste que desafina
Esperança que se perde na primeira esquina

Verdade que desatina
Dorzinha que passa com aspirina
Navalha que risca a face feminina
Revolta silenciosa feito buzina
Pavio apagado convertendo lágrima em parafina

Pensamentos voantes de menina
Os dois amores de Columbina
Lembrança que sufoca em surdina
Clarão que não ilumina
Fogueira de São João debaixo de garoa fina

Carro ladeira acima sem gasolina
Passado e futuro à beira da ruína
Avião de papel com defeito na turbina
Cerveja em garrafa de tubaína
Menino tentando crescer sem vitamina

Pão amanhecido sem margarina
Pedrinha que aprisiona a urina
Cartilha que indisciplina
Ciência que não se ensina
Açougueiro com licença para exercer a Medicina

Mundo sujo espelhado na retina
Água ardida que alucina
Substância letal em ampola de vacina
Vinagre para amaciar a carne na piscina
Micróbio se alimentando de penicilina

Capital do Capital invejando Teresina
Templo edificado em gelatina
Força bruta contra gente pequenina
Um tiro de borracha na costela para conter a adrenalina
Passagem proibida por excesso de melanina

sábado, 1 de março de 2008

ESTADO BRASILEIRO

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Jam ("Pão e Circo Sobre Papel")
"Todo o poder emana do povo"
(E nunca será exercido por ele)

O poder emana da vala comum
–Lugar onde escondemos nossa vergonha e decadência–

O poder emana
De uma facção criminosa
Que pegou em armas
Por ser privada de pegar em livros

A Soberania Nacional é mérito irrevogável,
Conquistada à sombra de uma mentira bem contada
E pouco importa a barriga vazia,
A cabeça inchada,
Os pés descalços,
As retinas embaçadas,
Os corpos desnutridos,
Os defuntos sem identificação...

Os três poderes
Fundiram-se numa única instituição
E o pensamento político nacional
Virou sinônimo de aberração:
O Legislativo, o Executivo e o Judiciário
São, hoje, apenas repartições públicas
E os seus chefes, burocratas em final de carreira


Queria ter coragem de
Invadir o Congresso Nacional
E metralhar todo mundo
Com ovo podre e tomate maduro

Queria ter coragem de
Mutilar as tetas da vaquinha
Que amamenta o Soberano e seus aliados


Queria ter coragem de
Defecar ao ar livre
E depois usar a bosta
Para escrever um verso de protesto
Na fachada da Suprema Corte...
E, por fim, dizer
Que fiz Arte Pós-Moderna.
Porém, a mais bela das gramáticas
Não me quer como amante
Ela prefere os nascidos em berço esplêndido

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

FUGA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: 1000imagens
Sai em disparada
Entra no beco
Espreme na fresta
Acomoda na vala
Encolhe no canto
Contorce na cerca
Liquidifica na poça
Escorre na calha
Rasteja no gramado
Evapora na fumaça
Esfarela na poeira
Emudece no silêncio
Desaparece no escuro
Acorda na enfermaria




segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

FIM DO MUNDO

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Raramago
Eu tinha dez anos de idade, ignorância e inocência.
Era meio-dia.
Escureceu.
Subi no telhado e vi um eclipse solar
E lembrei de quando minha avó falava sobre o fim do mundo
E eu não fui estudar
Fiquei em casa (embaixo da cama) esperando o mundo acabar.

Conseguinte, a noite vespertina despiu-se e virou dia
O sol dispersava soberano seus raios ultravioletas
E o mundo não acabou.

Minha avó – falsa profetiza –
Cultivou em mim o medo do Cosmos
Mas assombro-me agora
Diante da possibilidade
De morrer pelas mãos de um homem

domingo, 16 de dezembro de 2007

BAILARINA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Samara de Oliveira
Ela rejeita o teu sorriso
Ri das tuas roupas
Condena a tua caretice
Foge do teu olhar
Desvia do teu abraço
Cospe na tua sombra
Ridiculariza os teus sonhos
Confunde o teu coração com um tablado. Pisoteia.
Rasga os teus versos
Você silencia e escreve outros versos

terça-feira, 20 de novembro de 2007

DESESPERO

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Dionízio Leitão
Espero.
Espero..
Espero...
Desespero


sexta-feira, 28 de setembro de 2007

VENTANIA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Rui Vale de Sousa
Vento desastroso

Levanta saias,
Levanta platéias

Sacode poeira,
Folhas de goiabeira

Derruba castelos de cartas,
Casinhas de lata

Espalha cheiro de chulé,
Cheiro de café

Desmancha penteados,
Desmancha telhados

Arrasta papel,
Pano,
Plástico,
Pena,
Pêlo,
Moleque magrelo

Atrapalha a vista,
Engana o meteorologista

Prenuncia temporais,
Lama nos quintais

Assovia na curva,
Assusta a viúva

Apaga vela na pia
Arrepia

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

QUASE NADA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: 1000imagens
Um pouco compacto
Um pouco disperso

Um pouco manso
Um pouco perverso

Um pouco multidão
Um pouco solidão

Um pouco união
Um pouco rebelião

Um pouco calmaria
Um pouco ventania

Um pouco saudável
Um pouco febril

Um pouco razão
Um pouco emoção

Um pouco crescido
Um pouco estagnado

Um pouco simpatia
Um pouco arrogância

Um pouco teimosia
Um pouco mudança

Um pouco repleto
Um pouco vazio

Um pouco fosco
Um pouco transparente

Um pouco culpado
Um pouco inocente

Um pouco mel
Um pouco fel

Um pouco respeito
Um pouco intolerância

Um pouco ego
Um pouco caridade

Um pouco grave
Um pouco agudo

Um pouco picante
Um pouco suave

Um pouco água
Um pouco azeite

Um pouco roupa-nova
Um pouco trapo

Um pouco pranto
Um pouco gozo

Um pouco progresso
Um pouco retrocesso

Um pouco noite
Um pouco dia

Um pouco coragem
Um pouco fobia

Um pouco otimismo
Um pouco nostalgia

Um pouco excesso
Um pouco escassez

Um pouco orgulho
Um pouco decepção

Um pouco fértil
Um pouco estéril

Um pouco vital
Um pouco letal

Um pouco pouco
Um pouco pouco demais


segunda-feira, 23 de abril de 2007

RIMA RICA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: 1000imagens.com
Sou um poeta preto
Que escreve versos brancos.
Nunca aprendi a rimar amor
Com outra coisa que não fosse dor.
Um dia, alguém rimou preto com branco
E nasceu um mulatinho

terça-feira, 17 de abril de 2007

ANARQUIA

(Jorge Américo)

Passei a tarde toda atormentando as formigas.
Como um anarquista, desrespeitei jurisdição,
Mijei no formigueiro
E matei a rainha afogada.

















sábado, 14 de abril de 2007

A MÁQUINA DE MOER GENTE

Texto: Jorge Américo
Ilustração: 1000imagens

No ímpeto da madrugada
Alguém ligou a máquina de moer gente.
Soaram-se os tambores de guerra.
E pelas esquinas desertas, as sirenes
Prenunciavam dias sombrios.

Uma intensa chuva bélica interrompeu o silêncio
Saciando a sede de morte.
Luzes noturnas.
Gritos melindrosos.
Terremotos artificiais.
Explosões.
Morteiros.
Granadas.
Poeira.
Sangue.
Medo.

Uma rajada de metralhadora abriu o peito de uma criança,
Mas ela não morreu. Protagonizou obra do sobrenatural:
Dormiu na terra e acordou no céu...
Era um anjo.
Mataram um anjo e a televisão não mostrou
(O horário era impróprio).

Alguém apagou a luz!
Não. Foi um soldado que perdeu os olhos.
Nada, porém, mudou.
Antes de ser mutilado,
O infante já estava cego de ódio.

Esqueçamos a diplomacia e os Direitos Humanos!
Chamem a Sociedade Protetora dos Animais!
Alguém precisa fazer alguma coisa!
Dorida, a pomba da paz agoniza,
Calcada aos pés de um tirano.

quinta-feira, 15 de março de 2007

GAMBIARRA, A TECNOLOGIA CASEIRA

Texto: Jorge Américo

Olhar para o céu o dia inteiro e não ver Deus. E, à noite, ajoelhar-se diante da cama e agradecer ao Papai do Céu por mais um belo dia com intensos ventos sudoestes . Este é o cotidiano de quem é cativo da arte de empinar pipa.

Projetar um objeto, construí-lo minuciosamente atento a todos os detalhes, observando tamanho, peso, design, aerodinâmica e, depois de estudadas as condições meteorológicas, vê-lo levantar vôo e executar manobras que desafiam a gravidade. Tamanha perícia e fascínio pelo espaço tornam quase nula a diferença entre uma pipa e um foguete.

A fantasia de todo moleque crescido no subúrbio, longe da influência de manuais de engenharia aeroespacial, é carregada com a mesma paixão que durante meio século reuniu os maiores cientistas numa brincadeira de gente grande. A corrida espacial, além de temores apocalípticos, trouxe para a humanidade avanços nunca antes alcançados e nem sequer imaginados. Essas descobertas tecnológicas foram adaptadas para a vida doméstica e certa vez me livraram de levar algumas bordoadas nazoreia.

Numa tarde de sábado, em que eu estava dispensado das atividades escolares e de qualquer outra atividade que não estivesse relacionada com a pipa (inclusive me alimentar e tomar banho), precisei tomar a decisão mais importante da minha vida até aquele momento. Ou eu resgatava minha pipa ou preservava a antena do vizinho. Como moleque não tem a obrigação de pensar, eu não pensei, e a antena pereceu, interrompendo a transmissão da final do Campeonato Brasileiro, disputada entre Corinthians e Palmeiras. Um detalhe que não levei em consideração foi o fato de o vizinho ser corintiano roxo. Eu estava perdido.
Um minuto depois da tragédia, um homem nada simpático, com três metros de altura por dois de largura, veio procurar meu pai. Ele tinha labaredas de fogo no olhar e se tivesse percebido que eu estava escondido debaixo da cama, me transformaria numa réplica de sua antena. Meu pai tentou resolver diplomaticamente. O homem era inflexível. Ele não perderia aquele jogo por nada.

Tudo parecia perdido e eu rezava desesperadamente para todos os santos, até que fui atendido pela Santa Gambiarra. Num momento de êxtase intelectual, meu pai sugeriu que ele colocasse um Bom Bril na extremidade do cabo da antena e um milagre pôde ser observado a olho nu. A televisão 14 polegadas transformou-se numa tela de cinema com alta resolução de imagem e áudio, devido à grande potência do satélite de telecomunicações que fazia o jogo ser visto em todos os confins da Terra.

O Corinthians foi campeão e eu perdoado, graças a uma poderosa tecnologia de guerra que foi empregada para fins pacíficos e a um gol marcado aos 45 do segundo tempo.

Por Jorge Américo