quinta-feira, 22 de outubro de 2009
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Ranços
O ano nem começou e já é quase Março.O rei sorri e ameaça usar a força de seu braço.
O cavalo-sem-dono não se acostuma com o laço.
O astronauta diz que a Terra é mais bonita vista do espaço.
A criança nunca viu um palhaço.
A Polícia inventa provas e põe o pretinho num embaraço.
O sol vai embora e deixa mormaço.
O banqueiro se vê só e troca um carro por um abraço.
O afago não alivia mais o cansaço.
A lágrima não sai e enferruja o peito de aço.
A barriga tá estufada de tanto bagaço.
O velho morre sem nunca ter tido endereço.
O pão tá caro e ninguém sabe o preço.
A paixão provoca cegueira no começo.
O olhar da cigana é perigoso, tem feitiço.
O dente, se não beber leite, fica quebradiço.
O pai de dez não arruma serviço.
A vida é difícil no cortiço.
A Antropologia diz que o povo brasileiro é mestiço.
O relógio da vítima é de ouro maciço.
O açougue, depois das festas, só vende chouriço.
A menina novinha tá esperando um filho e não sabe o nome do moço.
O lavrador só encontra lama no poço.
A notícia dada pela metade provoca alvoroço.
O patrão chupa a fruta e vende o caroço.
O médico diz que é melhor deixar a bala alojada no pescoço.
Mais de 30 milhões dormem sem almoço.
O poeta tenta falar e o verso vira soluço.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
NOSTALGIA
O homemE tudo o que ele criou
É incompleto,
Precário
E provisório.
O presente e as coisas que o rodeiam
Estão em constante transformação
Basta um piscar de olhos
E tudo vira passado:
O primeiro dia na escola
O primeiro lápis emprestado
A primeira vontade de tomar iogurte e a geladeira vazia
O primeiro olho roxo
A primeira surra de Espada-de-São Jorge
A primeira flechada no peito
A primeira rejeição
O primeiro beijo
A primeira mentira
O primeiro banho de cachoeira
A Primeira Comunhão
O primeiro Ki-Chute usado
O primeiro gol impedido
O primeiro salário
A primeira roupa nova
O primeiro desencanto
O primeiro poema
A primeira fuga
O primeiro porre
A primeira batida policial
O primeiro desacato
O primeiro tapa na cara
A primeira vez
O primeiro calafrio
A primeira traição
O primeiro desespero
O primeiro desejo de desaparecer
O primeiro choro no banheiro
O primeiro discurso político
O primeiro diploma na família
O primeiro trimestre na fila do emprego
O primeiro medo de encarar o mundo
A primeira saudade da infância
A primeira revolta com o relógio
A primeira impressão de que a vida já vai ficando para trás
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
DIAS DE OPRESSÃO
O sangue fosco que escandescia como brasaEm dias de opressão
Ainda hoje percorre cada centímetro do meu corpo
Irriga vasos, glândulas e cérebro;
Alimenta toda a complexidade do sistema;
Os arrepios e tremedeiras que fragmentavam músculos
Ao ranger de dentes do capitão-do-mato
Ainda hoje estilhaçam minha carne
E afloram meu medo
Em dias de opressão
A voracidade e vileza dos militares
Misturam ao cheiro de fezes
O tinir das metralhas
Confunde meus sentidos e desperta o meu ódio
Em dias de opressão
De repente encontro-me na linha de tiro
Eu, Zé da Silva, trabalhador mal-remunerado
- Morador da rua de cima -
Sobrevivente do quilombo
E de inúmeras chacinas.
Eles rendem-me
Jogam-me contra a parede
Batem no meu rosto
E ofendem a minha moral
Em dias de opressão
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
CARROCEIRO
Carroceiro, garimpa o lixoE encontra nele
Remédio
Para a síndrome da deficiência alimentar
Carroceiro, largue esta carroça
– herança da linhagem eqüina –
E vá para o teu palácio
Porque a Família Real o aguarda
Com um sorriso no rosto
E um vácuo no estômago
Carroceiro, devorai os restos de lixo
Contemplai as páginas do livro já consumido pelas traças
E derrubai as construções de pensamento
Nas quais a mentira se edifica
Carroceiro, decretai a nova regra de sobrevivência
Atravessai o Atlântico, o Pacífico, o Índico, o Ártico e o Antártico
E proclamai em alta voz
A Lei Universal
Que é direito adquirido
Do homem nato e do homem não-nascido
Carroceiro, dizei aos chefes de Estado e aos seus subordinados;
Aos capitalistas e aos socialistas;
Aos burgueses e aos proletários;
Aos cristãos e aos ateus;
Aos pacificadores e aos terroristas;
Aos leigos e aos letrados;
Aos mansos e aos brutos;
Aos que sofrem e aos que fazem sofrer;
Que
Está terminantemente proibido
Morrer ou permitir que se morra de fome
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
segunda-feira, 30 de junho de 2008
MELANINA
Fumaça disfarçada de neblina
Presença nociva que contamina
Viola triste que desafina
Esperança que se perde na primeira esquina
Verdade que desatina
Dorzinha que passa com aspirina
Navalha que risca a face feminina
Revolta silenciosa feito buzina
Pavio apagado convertendo lágrima em parafina
Pensamentos voantes de menina
Os dois amores de Columbina
Lembrança que sufoca em surdina
Clarão que não ilumina
Fogueira de São João debaixo de garoa fina
Carro ladeira acima sem gasolina
Passado e futuro à beira da ruína
Avião de papel com defeito na turbina
Cerveja em garrafa de tubaína
Menino tentando crescer sem vitamina
Pão amanhecido sem margarina
Pedrinha que aprisiona a urina
Cartilha que indisciplina
Ciência que não se ensina
Açougueiro com licença para exercer a Medicina
Mundo sujo espelhado na retina
Água ardida que alucina
Substância letal em ampola de vacina
Vinagre para amaciar a carne na piscina
Micróbio se alimentando de penicilina
Capital do Capital invejando Teresina
Templo edificado em gelatina
Força bruta contra gente pequenina
Um tiro de borracha na costela para conter a adrenalina
Passagem proibida por excesso de melanina
sábado, 1 de março de 2008
ESTADO BRASILEIRO
(E nunca será exercido por ele)
O poder emana da vala comum
–Lugar onde escondemos nossa vergonha e decadência–
O poder emana
De uma facção criminosa
Que pegou em armas
Por ser privada de pegar em livros
A Soberania Nacional é mérito irrevogável,
Conquistada à sombra de uma mentira bem contada
E pouco importa a barriga vazia,
A cabeça inchada,
Os pés descalços,
As retinas embaçadas,
Os corpos desnutridos,
Os defuntos sem identificação...
Os três poderes
Fundiram-se numa única instituição
E o pensamento político nacional
Virou sinônimo de aberração:
O Legislativo, o Executivo e o Judiciário
São, hoje, apenas repartições públicas
E os seus chefes, burocratas em final de carreira
Queria ter coragem de
Invadir o Congresso Nacional
E metralhar todo mundo
Com ovo podre e tomate maduro
Queria ter coragem de
Mutilar as tetas da vaquinha
Que amamenta o Soberano e seus aliados
Queria ter coragem de
Defecar ao ar livre
E depois usar a bosta
Para escrever um verso de protesto
Na fachada da Suprema Corte...
E, por fim, dizer
Que fiz Arte Pós-Moderna.
Porém, a mais bela das gramáticas
Não me quer como amante
Ela prefere os nascidos em berço esplêndido
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
FUGA
Ilustração: 1000imagens
Sai em disparadaEntra no beco
Espreme na fresta
Acomoda na vala
Encolhe no canto
Contorce na cerca
Liquidifica na poça
Escorre na calha
Rasteja no gramado
Evapora na fumaça
Esfarela na poeira
Emudece no silêncio
Desaparece no escuro
Acorda na enfermaria
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
FIM DO MUNDO
Eu tinha dez anos de idade, ignorância e inocência.Era meio-dia.
Escureceu.
Subi no telhado e vi um eclipse solar
E lembrei de quando minha avó falava sobre o fim do mundo
E eu não fui estudar
Fiquei em casa (embaixo da cama) esperando o mundo acabar.
Conseguinte, a noite vespertina despiu-se e virou dia
O sol dispersava soberano seus raios ultravioletas
E o mundo não acabou.
Minha avó – falsa profetiza –
Cultivou em mim o medo do Cosmos
Mas assombro-me agora
Diante da possibilidade
De morrer pelas mãos de um homem
domingo, 16 de dezembro de 2007
terça-feira, 20 de novembro de 2007
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
VENTANIA
Ilustração: Rui Vale de Sousa
Levanta saias,
Levanta platéias
Sacode poeira,
Folhas de goiabeira
Derruba castelos de cartas,
Casinhas de lata
Espalha cheiro de chulé,
Cheiro de café
Desmancha penteados,
Desmancha telhados
Arrasta papel,
Pano,
Plástico,
Pena,
Pêlo,
Moleque magrelo
Atrapalha a vista,
Engana o meteorologista
Prenuncia temporais,
Lama nos quintais
Assovia na curva,
Assusta a viúva
Apaga vela na pia
Arrepia
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
QUASE NADA
Um pouco compactoUm pouco disperso
Um pouco manso
Um pouco perverso
Um pouco multidão
Um pouco solidão
Um pouco união
Um pouco rebelião
Um pouco calmaria
Um pouco ventania
Um pouco saudável
Um pouco febril
Um pouco razão
Um pouco emoção
Um pouco crescido
Um pouco estagnado
Um pouco simpatia
Um pouco arrogância
Um pouco teimosia
Um pouco mudança
Um pouco repleto
Um pouco vazio
Um pouco fosco
Um pouco transparente
Um pouco culpado
Um pouco inocente
Um pouco mel
Um pouco fel
Um pouco respeito
Um pouco intolerância
Um pouco ego
Um pouco caridade
Um pouco grave
Um pouco agudo
Um pouco picante
Um pouco suave
Um pouco água
Um pouco azeite
Um pouco roupa-nova
Um pouco trapo
Um pouco pranto
Um pouco gozo
Um pouco progresso
Um pouco retrocesso
Um pouco noite
Um pouco dia
Um pouco coragem
Um pouco fobia
Um pouco otimismo
Um pouco nostalgia
Um pouco excesso
Um pouco escassez
Um pouco orgulho
Um pouco decepção
Um pouco fértil
Um pouco estéril
Um pouco vital
Um pouco letal
Um pouco pouco
Um pouco pouco demais
segunda-feira, 23 de abril de 2007
terça-feira, 17 de abril de 2007
ANARQUIA
sábado, 14 de abril de 2007
A MÁQUINA DE MOER GENTE
Ilustração: 1000imagens

No ímpeto da madrugada
Alguém ligou a máquina de moer gente.
Soaram-se os tambores de guerra.
E pelas esquinas desertas, as sirenes
Prenunciavam dias sombrios.
Uma intensa chuva bélica interrompeu o silêncio
Saciando a sede de morte.
Luzes noturnas.
Gritos melindrosos.
Terremotos artificiais.
Explosões.
Morteiros.
Granadas.
Poeira.
Sangue.
Medo.
Uma rajada de metralhadora abriu o peito de uma criança,
Mas ela não morreu. Protagonizou obra do sobrenatural:
Dormiu na terra e acordou no céu...
Era um anjo.
Mataram um anjo e a televisão não mostrou
(O horário era impróprio).
Alguém apagou a luz!
Não. Foi um soldado que perdeu os olhos.
Nada, porém, mudou.
Antes de ser mutilado,
O infante já estava cego de ódio.
Esqueçamos a diplomacia e os Direitos Humanos!
Chamem a Sociedade Protetora dos Animais!
Alguém precisa fazer alguma coisa!
Dorida, a pomba da paz agoniza,
Calcada aos pés de um tirano.
quinta-feira, 15 de março de 2007
GAMBIARRA, A TECNOLOGIA CASEIRA
Texto: Jorge Américo Projetar um objeto, construí-lo minuciosamente atento a todos os detalhes, observando tamanho, peso, design, aerodinâmica e, depois de estudadas as condições meteorológicas, vê-lo levantar vôo e executar manobras que desafiam a gravidade. Tamanha perícia e fascínio pelo espaço tornam quase nula a diferença entre uma pipa e um foguete.
A fantasia de todo moleque crescido no subúrbio, longe da influência de manuais de engenharia aeroespacial, é carregada com a mesma paixão que durante meio século reuniu os maiores cientistas numa brincadeira de gente grande. A corrida espacial, além de temores apocalípticos, trouxe para a humanidade avanços nunca antes alcançados e nem sequer imaginados. Essas descobertas tecnológicas foram adaptadas para a vida doméstica e certa vez me livraram de levar algumas bordoadas nazoreia.
Tudo parecia perdido e eu rezava desesperadamente para todos os santos, até que fui atendido pela Santa Gambiarra. Num momento de êxtase intelectual, meu pai sugeriu que ele colocasse um Bom Bril na extremidade do cabo da antena e um milagre pôde ser observado a olho nu. A televisão 14 polegadas transformou-se numa tela de cinema com alta resolução de imagem e áudio, devido à grande potência do satélite de telecomunicações que fazia o jogo ser visto em todos os confins da Terra.






